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2004
Michel Gondry
108 min
Eternal Sunshine of the Spotless Mind é uma autópsia lírica sobre a memória e o amor.
Há uma violência delicada no desejo de esquecer alguém, uma contradição poética que o filme retrata com uma precisão dolorosa. O procedimento que promete alívio ao apagar memórias não ameniza a dor, apenas a transforma em algo mais profundo: a dor do vazio e da ausência não só do outro, mas de si mesmo.
Ao apagar a memória de alguém que amámos, não encontramos liberdade, na verdade, perdemos parte de nós próprios, um fragmento da nossa história. E é neste paradoxo que o filme encontra a sua força mais comovente. Esquecer alguém que amámos profundamente é como tentar amputar uma parte da alma e acreditar que ainda podemos andar inteiros.
No seu cerne, este filme revela que a memória não é um arquivo, mas um espelho. E ao parti-lo, não desfazemos o reflexo, apenas multiplicamo-lo em fragmentos, sendo que cada um carrega uma verdade fragmentada sobre nós mesmos.
O amor, mesmo condenado ao fracasso, vale a pena ser vivido e lembrado. E esquecer é uma forma de morrer enquanto ainda se está vivo.
Recentemente li "O Estrangeiro" e, em conversa com uma amiga, descobri que ela também estava a ler este livro. Combinámos trocar impressões, e chegámos à mesma conclusão: trata-se de uma obra desconfortável. Eu adoro isso porque poucos escritores conseguem instalar no leitor uma sensação tão inquietante, uma espécie de tensão silenciosa que se aloja no nosso âmago e não nos abandona. Apesar de ser um romance curto, que se lê rapidamente, permanece na mente muito tempo depois de o terminarmos.
A história acompanha Meursault, um homem aparentemente comum, que reage aos acontecimentos da vida (os bons ou os maus) com uma neutralidade emocional desconcertante. O que mais incomoda é a forma como ele não se encaixa nas expectativas morais e emocionais da sociedade: ele simplesmente é como é. Essa autenticidade, crua e quase indiferente, cria um choque silencioso ao leitor, uma confrontação direta com a liberdade e a indiferença do mundo.
Ao acompanhar Meursault na sua aceitação do absurdo, sinto uma mistura de fascínio e resistência. Ele alcança uma lucidez e liberdade paradoxais ao deixar de lutar contra a indiferença do mundo, reconhecendo que nada tem um sentido intrínseco e que todas as estruturas morais e esperanças de consolo são meras construções humanas.
O que me cativa ao ler Camus, é precisamente a crueza da consciência do absurdo: a perceção de que o mundo é indiferente e de que as nossas certezas e ilusões se desfazem perante a realidade. Mas esta ideia confronta a nossa necessidade humana de sentido. A verdade é que o mundo não nos oferece respostas prontas e o sentido que atribuímos à vida é uma construção temporária e subjetiva, e isto é desconcertante porque desmonta a ilusão de controlo e estabilidade que nos ampara. Porém, ao mesmo tempo, essa perceção pode ser libertadora: se o sentido não é imposto pelo mundo, podemos ser nós a criá-lo, ainda que provisoriamente, a partir das nossas experiências, escolhas e da consciência plena do que é real.
No fundo, Camus não pretende que gostemos de Meursault e apenas quer que o encaremos tal como ele é, e, ao fazê-lo, encaremos também a nossa própria existência ao questionarmos a forma como nos relacionamos com o mundo. Aceitar o absurdo não significa resignação, mas uma liberdade radical: a liberdade de viver sem esperar justificações externas, de encontrar beleza e sentido nos detalhes efémeros da existência, e de sentir sem a obrigação de traduzir cada experiência em moral ou fundamento.

2001
Richard Linklater
101 minutos
Tenho uma admiração de longa data pelo Richard Linklater, desde que vi a icónica trilogia "Before Sunrise", porque foi uma obra cinematográfica que moldou a minha visão sobre o meu mundo interior e exterior. Qualquer projeto que ele assuma carrega uma singularidade especial e uma sensibilidade rara.
Waking Life é mais do que um filme comum, é uma experiência. Ele filme desafia a forma tradicional de contar histórias e mergulha profundamente em questões existenciais, explorando temas como filosofia, sonhos, liberdade, consciência e a busca pela verdade e pelo significado da vida, apresentados através de diálogos filosóficos provocantes e perturbadores.
O estilo visual do filme é outro elemento que se destaca: a animação surreal cria uma atmosfera onírica, onde as imagens se distorcem e se transformam, deixando-nos sem saber se estamos a testemunhar uma ilusão ou um pesadelo.
Em Waking Life, a história gira em torno de um protagonista que parece estar preso num ciclo interminável de sonhos, onde cruza o caminho de várias pessoas de diferentes idades, origens, experiências e perspetivas, cada uma oferecendo reflexões profundas sobre o significado da vida e a essência do ser, levando-nos a questionar as nossas próprias crenças e noções sobre a existência.
Para quem procura um filme tradicional, com uma progressão clara e um ritmo dinâmico, Waking Life é, sem dúvida, uma obra extremamente desafiante, pois não é um filme fácil de digerir e exige que o espectador mergulhe nas questões existenciais que levanta, com uma mente aberta.
Este filme é para aqueles que estão dispostos a refletir profundamente sobre a vida, a consciência e a realidade, prontos para se perderem no labirinto da mente.

1966
Jean-Luc Godard
85 minutos
Made in U.S.A é um filme com uma premissa provocante que desafia o espectador, mesmo que isso implique uma certa falta de clareza. Godard não está interessado em contar uma história através de uma narrativa coerente, como nos filmes "normais". Ele quer provocar através da crítica política e social.
A sinopse parece simples: uma mulher à procura de respostas sobre a morte do seu ex-amante. A história não avança, os diálogos são pouco claros e as cenas parecem desenrolar-se de forma incoerente. Mas tudo isso é intencional, pois fica claro que Godard queria desconstruir o cinema, assim como queria desconstruir o sistema político e social que ele mesmo critica.
É um filme narrado através de referências indiretas aos Estados Unidos e à França dos anos 60, especificamente à Guerra do Vietname, ao imperialismo, ao colonialismo, à manipulação dos mídia e à repressão política. Ver o "Made in U.S.A" hoje, é entender que Godard já se preparava para os protestos de maio de 1968, como um aviso de um futuro anunciado, e por isso pode ser considerado um filme cujo objetivo não é entreter, mas sim despertar as mentes submersas na conformidade e na propaganda.
Não é um filme fácil de ver, por isso não o recomendaria à generalidade das pessoas, mas é uma obra honesta na sua crítica e, só por isso, é um desafio que vale a pena aceitar.
«A esquerda e a direita são iguais: nunca mudarão. A crueldade da direita é estúpida e a esquerda é demasiado sentimental. Esquerda e direita são termos obsoletos.»
Houses of the Holy (1973) dos Led Zeppelin vai se um dos meus álbuns favoritos para sempre. A música dos anos 70 tem a capacidade de me despertar memórias, mesmo que inventadas. São memórias emprestadas, herdadas do tempo, como fotografias encontradas numa gaveta que não me pertence, mas onde, estranhamente, me revejo. Estas músicas não narram o meu passado: inventam-no. E, ao inventá-lo, oferecem-me um território emocional onde a nostalgia não dói.
Este álbum não me devolve o que perdi mas dá-me, antes, aquilo que nunca tive, mas que de algum modo, sempre me pertenceu.